26/08/2017

As Camisetas Recicláveis da C&A


Recentemente fui conferir o lançamento das camisetas feitas com algodão mais sustentável desenvolvidas pela C&A usando apenas materiais seguros e confeccionadas de forma social e ambientalmente responsáveis. Além disso, em todas as etapas do processo produtivo houve reuso de água e foi utilizada energia renovável.

São as primeiras camisetas básicas do mundo com certificação de nível Gold da Cradle to Cradle (selo que identifica produtos capazes de assumir uma produção “circular”, ou seja, que pode ser sempre reciclado e não precisa ser destacado ou gerar resíduos) e estarão disponíveis a partir de 1º de setembro em 29 lojas da rede (ainda não sabemos quais) e na loja online, com versões feminina e masculina, em seis cores cada. Esta é a primeira “coleção circular” da rede e foi desenvolvida globalmente.

Inicialmente eu fiquei muito feliz em descobrir tal ação e conferir esse lançamento de perto ao lado de personalidades como Fernanda Paes Leme e Lilian Pacce. De fato, aconteceu um bate-papo para apresentar a ação e pequena coleção que vem com um grande significado para o setor fast fashion, onde nem a procedência e a forma de produção são questões relevantes. 

Estamos nos encaminhando para uma sociedade mais consciente ao consumir, passo a passo esse tipo de comportamento não será uma exceção, mas sim uma preocupação compartilhada por todos. Entretanto, apesar de super gostar dessa iniciativa da C&A eu continuo me questionando sobre o que realmente está acontecendo por alguns motivos básicos:

1 - O primeiro impacto negativo que eu tive em relação à coleção, é que as peças custam apenas R$19,90. Esse é um valor baixo para uma peça que inicialmente é feita com algodão "mais sustentável" (chegaremos nessa parte abaixo), onde muito estudo, investimento e trabalho de muitas pessoas estão envolvidos. Apesar de entender que esses custos podem ser diluídos, gostaria de ver mais transparência em todo o processo para ter certeza de que não existe ninguém sendo prejudicado de alguma forma em toda essa situação.

2 - O algodão utilizado para produzir essas peças não é 100% orgânico. O algodão escolhido é do tipo BCI e descobri isso após o evento. Para você entender melhor vou explicar o que significa BCI: Better Cotton Initiative, que surgiu após o preço do algodão orgânico tornar-se demasiado elevado para o consumidor final devido a vários custos da certificação que devem ser feito a cada passo que vai do plantio ao descaroçamento passando depois pela fabricação, até que o produto atinja o usuário final. Já para o algodão BCI, somente o nível básico de rastreabilidade é importante, reduzindo custos, mas causando falhas no processo.

Esse tipo de algodão, de fato, é produzido de uma forma mais sustentável (mas isso não necessariamente significa que é 100% sustentável), pois seus princípios de produção incluem demonstrar os benefícios inerentes à produção de Better Cotton, especialmente a lucratividade para os agricultores, reduzir o impacto do uso da água e de pesticidas na saúde humana e no meio ambiente, melhorar a saúde do solo e a biodiversidade, promover as relações justas de trabalho para comunidades agrícolas e trabalhadores de culturas de algodão, facilitar a troca de conhecimento global em produções algodoeiras mais sustentáveis, porém existem controvérsias que eu listo abaixo. 

3 - A semente de algodão BCI é transgênica. Dentro da semente existe uma quantidade de agrotóxico e isso acaba reforçando cada vez mais nossa dependência dos OGM (organismos geneticamente modificados), que já é enorme. Inclusive para semear os vegetais mais comuns, como o quiabo, temos de usar as sementes vendidas com esses agentes químicos que poluem. 

Para ilustrar essa dependência, podemos utilizar o caso da Monsanto, empresa que faz agrotóxicos e afins, que começou a vender sementes transgênicas de algodão BT, gerando plantas transgênicas contendo genes do Bacillus Thuringiensis que produzem toxinas inseticidas. Com isso, pessoas morreram e o muito solo desse mundo foi contaminado. Na Índia, por exemplo, mais de 300 mil agricultores se suicidaram entre 1995 e 2013 em consequência da nova forma de plantio gerado pelo algodão BT. Esse agricultores não conseguiram manter as condições especiais na plantação que o algodão BT requer e se encontram desfalcados economicamente, porque essa semente é mais cara que a tradicional. A Monsanto tem o monopólio de muitas das sementes e não existe muita alternativa no jogo que se transformou a sobrevivência para esses agricultores. 

4 - Além disso tudo, fiquei me questionando sobre a etiqueta, aparentemente a peça não conta mais com a tag tradicional, ela estaria estampada no interior da camiseta para facilitar o processo de reciclagem. Entretanto, essa estampa é feita com que tipo de tinta? Seria uma tinta biodegradável? Pois caso não seja, podemos adicionar mais um fator poluente em nossa conta, assim como podemos adicionar o processo de tingimento do algodão. Não encontrei informações sobre tais pontos em minhas pesquisas. 


Apesar desses pontos negativos eu não posso considerar a ação da C&A uma farsa ou um completo greenwash, pois admiro imensamente sua atitude dentro do mercado de moda mundial. A empresa está incentivando o plantio de algodão "mais sustentável" no nosso país, uma vez que ela é a maior consumidora desse produto no mundo, já vende desde 2012 roupas produzidas com algodão BCI no Brasil e pretende que 100% das suas roupas em 2020 sejam feitas com fibra sustentável ou orgânica. Com certeza essa atitude trará impacto e questionamento para seus consumidores e espero que a marca traga cada vez mais transparência em seu processo produtivo e que todos nós possamos desenvolver esse exercício (difícil, porém necessário) de questionar mais sobre nossas roupas. 

ATUALIZAÇÃO 

Recebi um e-mail como resposta aos pontos que levante nesse post. Segue abaixo:
"Olá, Marieli, tudo bem? Tivemos acesso ao seu post sobre o lançamento das camisetas Cradle to Cradle™ da C&A e temos algumas ponderações que seriam importantes para o esclarecimento aos seus seguidores sobre a coleção. Em relação ao preço da peça, de R$ 19,99 feminina e R$ 29,99 masculina, é preciso deixar claro que uma comparação entre valor e forma de fabricação não é certa. Como o produto é idêntico ao produto básico que já oferecemos em nossas lojas, não faria sentido que ele custasse mais caro para o consumidor final, mesmo que estejamos fazendo um investimento em inovação. Adicional a isso, a rede de varejo é pioneira no monitoramento da cadeia, publica abertamente seus fornecedores e tem um rigoroso código de conduta para garantir produtos íntegros, ou seja, todo o processo produtivo segue padrões para garantia de condições justas de trabalho à todos os envolvidos e, nesta coleção, não é diferente. Já o algodão utilizado na produção da camiseta com a certificação Cradle to Cradle™ é certificado orgânico na origem, de acordo com padrões internacionais. Isso significa que a matéria-prima utilizou de fontes orgânicas, sem o uso de químicos, garantindo segurança do agricultor e do consumidor, diferente do que você publicou. No caso da etiqueta, vale ressaltar que o fato não procede. A camiseta, incluindo seus componentes como fiamentos e etiquetas foi desenvolvida para ser 100% reciclável. Além disso, todos os materiais utilizados para produzir a camiseta, inclusive as etiquetas e as estampas para indicar tamanho são mais seguros e estão alinhados aos materiais permitidos pela certificação Cradle to Cradle™. Podemos detalhar melhor um pouco esse processo e tirar qualquer dúvida adicional com um telefonema. Para nós é muito importante que você se sinta confortável com as informações e que continue esse trabalho de informar aos seus seguidores."

É isso. :) 

comentários pelo facebook:

2 comentários:

  1. tambem achei bem baratas essas camisetas.. ainda assim, ja é um passo ne? ver marcas grandes nacionais começando nesse caminho de sustentabilidade, já é alguma coisa! torcer para outras tambem seguirem esse caminho de produção mais consciente!

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  2. acho muito legal o fato de você questionar os posicionamentos da marca e querer saber a fundo mesmo sobre o produto. e não somente ir ao evento, dizer que estava tudo lindo e que o item é ótimo.
    legal também a marca dar o parecer dela com os esclarecimentos. assim a relação consumidor/marca se torna muito mais justa e honesta.

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