21/07/2017

Café e gente só sentimentos


Aprendi que quem nasce só sentimentos nunca conseguirá ser leve, meio termo, café com leite. Nem dará certo com gente assim. Quem nasce só sentimentos, na verdade, tende a ser solitário. Ama demais e se entrega demais, é lei. No fim da noite sempre vai correr para o canto do quarto querendo entender o sentido de tudo ou sofrendo demais por tudo. Gente que sente demais tem a necessidade não assumida por drama. Não é que nunca nada esta bom e também não é que tudo é ruim. Mas quando o momento é bom ele é maravilhoso, e quando está ruim fica terrível, escuro. 


Gente que sente demais sempre espera coisas boas e coisas ruins sem data para chegar, porque é isso que aprenderam desde cedo. Mas entram no barco naufragando, e de repente quando abrem a porta do convés estão no show da banda favorita. Encaram o precipício e pulam sem pensar duas vezes. Porque, no fim de tudo, por mais que se negue, vale a pena. Sentir vale a pena e é um ato de pura coragem. Quando se sente demais, o tombo é maior, a felicidade é quase uma overdose e a tristeza é do tamanho do mundo. Tudo é bonito e triste.



Tudo é sentido dez vezes mais forte e algumas vezes, nem se sabe qual é o sentimento. A dor da felicidade ou a felicidade da dor, por exemplo. Só quem sente verdadeiramente sabe. Entender não é um privilégio pra quem sente, é tudo questão de tato. Dói ser feliz por medo da felicidade acabar e às vezes a tristeza é confortável porque não se tem mais nada a perder. É uma bagunça. Gente que sente tudo à flor da pele é uma bagunça daquelas. São as pessoas mais tristes e mais felizes que se pode ter. São as mais bonitas de se ver também. A dor que se tem quando sente demais é sempre poética. O sorriso de alguém que sente de mais deveria virar obra de arte pintada a óleo sobre madeira de álamo.


Quem sente de mais carrega a emoções o tempo todo. Mas aprendi também que quando se carrega algo tão grande assim dentro de si mesmo, eventualmente você acaba aprendendo a lidar e aceitar toda a confusão, porque muito peso nas costas te ensina a levar a bagagem direito.


Fotos por João Gorri no café Torra Clara

Eu visto: 
| Calça alfaiataria: Alexandre Herchcovitch | Camisa: Pimkie | Jaqueta Jeans: brechó | Oxford vegano: Urban Flowers | Meias: Lupo | 

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4 comentários:

  1. nossa, eu me reconheci tanto no seu texto... eu vivia sob a filosofia do 'não sei sentir em doses homeopáticas', era tudo 8 ou 80, ou era euforia ou era depressão. hoje, eu já sei que dá pra ficar só na alegria e que a dor, na verdade, pode parecer parte da vida, mas não tem nada de bonito nela. é muito melhor viver a vida sabendo que é possível ser sempre alegre, que tudo é dádiva, e que a beleza está sempre em ser quem a gente é de verdade, sem essa loucura de sentir cada hora uma coisa

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  2. Parece que esse texto foi feito pra mim Mari, me vi em cada verso dele!
    Ah, as fotos ficaram maravilhosas
    www.desencana.com ♥

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  3. Sabe aquele texto que a gente queria ter escrito de tão perfeito? Pois é, "senti demais" cada palavra tua, porque reconheço cada uma delas. Gente que sente demais, sou uma delas e como você disse, existe dor e delícia em ser assim. Parabéns por colocar tão bem em forma de texto uma sensação que as vezes nem sabemos explicar. Lindo, lindo, lindo!!

    www.polaroidscotidianas.com

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