25/10/2016

Vogue, o que aconteceu com você?

Fonte: Pinterest
Quem me acompanha nas redes sociais sabe que dias atrás participei da Maratona Mude, prestigiando grandes nomes da moda e design brasileiro. Um das palestras que eu mais estava ansiosa para assistir, de fato, era da Daniela Falcão, diretora da Vogue Brasil. Para abrir o jogo e ser sincera, eu não costumo ler a Vogue feita para o brasileiro, sempre achei o conteúdo um tanto quanto pobre, algumas matérias sem sentido e sempre achei mais interessante ler a Vogue UK, que apresenta, de uma forma muito diferente, conteúdo de moda para seus leitores. Bom, gosto não se discute e sempre coloquei em mente que apesar de eu não gostar da Vogue Brasil, tem um monte de gente que gosta, um monte de gente que assina e um monte de gente que busca informação ali. Jamais poderei desvalorizar o quanto a Vogue daqui abriu espaço para alguns designers jovens e apresentou o trabalho deles para milhares de pessoas.

De qualquer maneira, antes de ir direto para o assunto, vamos destacar um ponto importante. Em entrevista para o Correio 24 Horas, Falcão foi questionada sobre o público da revista, e se posicionou da seguinte maneira: 

"Para uma mulher de 25 a 55 anos e mesmo assim eu pego leitoras com mais de 55 e temos uma base de mulheres mais jovens que é grande também. Em tese, a Vogue é voltada para o público de classe A, então penso que a mulher da Vogue pode tudo. Não tenho limitação financeira. Isso diferencia a Vogue de outras revistas femininas e de moda. Eu não me preocupo em ser acessível e a grande sacada é que você não precisa comprar aquilo. Eu mostro o que tem de bacana, mas não necessariamente caro. A mulher da Vogue vai da coxinha ao caviar. Não tem coisa mais deliciosa do que uma boa coxinha de frango. Ela faz parte do universo Vogue como o caviar mais raro, que pipoca na boca. A revista é uma delícia de fazer e ler, pela liberdade." Fonte: Correio 24 Horas

Numa realidade econômica onde em 10 anos o nível de endividamento de famílias foi de 18% para mais de 30%, a gente tem uma revista considerada uma das mais influentes no Brasil e uma das 5 edições da Vogue mais influentes no mundo que foca em um público de classe A, se segmenta especificamente dentro desse nicho e consegue ser tão superficial a ponto de fazer todo mundo que gosta de moda e de comportamento torcer o nariz para notícias e posicionamentos tão desnecessários em pleno 2016. 

Já não bastava a gafe cometida nas Paraolimpíadas, durante a palestra que eu assisti, Daniela disse para mim e mais outras 150 pessoas, que ela não opinaria e não se posicionaria sobre tal assunto, já que, segundo ela, a campanha foi um "sucesso". Aumentaram as vendas dos ingressos? Sim, mas era necessário ignorar a representatividade - assunto tão discuto atualmente - para fazer isso? Eu, mera aluna do curso de moda e autora de um blog pequeno como este, consigo pensar em campanhas muito melhores que não seriam vistas como uma ofensa assim. Me pergunto até que ponto a gente vai achar melhor optar por uma campanha publicitária polêmica para atingir "benefícios" mais importantes do que manter a dignidade e o respeito ao próximo. 

É claro que na minha opinião, esse não foi o ponto mais "discutível" da palestra, e sim o conteúdo dela: Dicas para Trabalhar na Vogue Brasil. Foi um conteúdo tão rico, tão bem apresentado - por favor, notem a ironia - pela editora chefe, que há muito escreveu sobre política e estudou anos no exterior, que eu estava quase levantando da cadeira e indo tomar um café para não "prestigiar" tamanha palhaçada. Se você não sabe do que eu estou falando, então leia a listinha abaixo e descubra o que você precisa ser e fazer para entrar para uma das revistas de moda mais populares do Brasil:

1. Ter boa memória e bom humor 
2. Dormir apenas 5 horas por noite 
3. Flexibilidade física e emocional 
4. Saber fazer as unhas e se maquiar sozinha 
5. Gostar de tirar selfie com os outros 
6. Se multiplicar e ser multitasking

Se você tiver mais paciência para ler esse tipo de coisa, segue o link para conferir a matéria que INFELIZMENTE foi publicada no site da revista. Bom, é claro que todo o time da Vogue Brasil imagina que o resto das coisas que você precisa ser para trabalhar lá, está subentendido nas entrelinhas dessa lista. Só pode ser isso, pois eu não consigo imaginar como alguém pode divulgar uma coisa dessas sem perceber o quão fútil, ridículo e superficial ela é. 

Para ser mais sincera, isso me ofendeu de algumas maneiras: eu como estudante de moda sei o quanto pode ser complicado e difícil chegar no tão sonhado diploma. O quanto a gente estuda, lê, costura, corta, produz, cria e passa noites sem dormir para fazer algo com relevância. Sim, a gente até dorme apenas 5 horas por noite, mas com certeza não é para lagar o FURO DO SÉCULO como essa notícia de que Juliana Paes curte fazenda, mas deixa parte do sutiã à mostra. Só para deixar bem claro, a conjunção "mas" marca uma oração coordenada adversativa, que indica uma relação de oposição entre as unidades ligadas, ou seja, quanto a gente usa o "mas", basicamente apresenta um argumento adverso ao anterior e na minha interpretação, o fato da Juliana ter deixado uma parte do sutiã de fora se torna algo negativo através dos olhos de quem escreveu a matéria. Olha, prefiro nem comentar o que eu acho sobre isso, por que eu provavelmente precisaria adicionar uns bons palavrões na frase para mostrar o quão decepcionada e chateada fiquei. 

Outro ponto que me deixou perplexa sobre Daniela na palestra, foi quando ela começou a se referir ao ensaio realizado pela revista em maio deste ano com a Rihanna. Ela inciou contanto uma história sobre a locação pensada para o ensaio: era uma casa em Ilha Grande, que segundo Daniela, era simples, porém linda e seria um cenário ideal para as fotos. Acontece que a Rihanna se recusou a fotografar ali, ela só seria clicada pelas lentes do Mariano Vivanco se o ensaio fosse realizado na vila de pescadores nas redondezas da praia. Até aí, tudo bem. O que achei de mal gosto é como a editora chefe da Vogue se referiu a essa vila: "uma vila pobre, horrorosa" dizia ela enquanto batia o pé no chão para dar ênfase à suas palavras. Me pergunto, desde quando ser pobre é horroroso? 

E pensar que eu fiquei feliz ao ouvir da Daniela, antes do início da palestra, que precisávamos tirar uma foto, já que por coincidência, vestíamos parkas verde militar. Juro que pensei "olha, que bom, né! Acertar o look com a chefe da Vogue não é pouca coisa!", mas por final, após a palestra me esquivei para longe do palco e preferi fazer de conta que havia esquecido da tal foto. O dia que eu me deixar levar por glamourização, por favor, alguém me afasta dos computadores e dos celulares, pois já não mais estarei apta para escrever conteúdo de qualidade. 

Perante a todos esses acontecimentos, acho que precisamos reforçar nosso lado crítico e sermos mais seletos em relação as coisas que lemos, e principalmente, de quem lemos. É uma coisa difícil deixar de consumir conteúdo de quem basicamente comanda esse mundo, mas nós precisamos lembrar que se tal coisa/pessoa está no poder, é por que nós colocamos isso lá. Menos Temer, mas isso aí é outro assunto para se discutir em outro momento. 

comentários pelo facebook:

11 comentários:

  1. Perai, deixa eu aplaudir primeiro <3 senhor que texto foi esse mulher?! achei ele super coerente, eu super concordo com você em todos os sentidos e imagino a sua indignação quando ouviu aquela mulher falar essas barbaridades ;s to impressionada só de ver seu texto, imagina na hora. Mas continua assim linda, sendo você, pensando dessa maneira, que você vai conseguir tudo o que quer *-*

    agora palhaçada essa lista do que precisa pra trabalhar na vogue, pelo amor de deus --'

    posso compartilhar com você? eu amo ver as suas fotos do insta <3 são tão lindas!

    beijus :*
    japona.mairanamba.com

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  2. Simplesmente estou cada vez mais me apaixonando por seu blog guria. Continua sempre assim, ta? hahah
    Eu achei aquela matéria da Juliana Paes de um ridículo extremo, pensei que era zoação, tão triste descobrir que não é :(
    Beijo!

    Sorriso Espontâneo

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. APLAUDINDO DE PÉ! Estou amando demaaaaaaaaais os posts comportamento/opinião. Estou no finalzinho do curso de Jornalismo e quando comecei morria de vontade de fazer especialização em jornalismo de moda, mas vendo coisas como essa me desiludi bonito!

    Pode continuar assim! Colocando para fora sua opinião, indignação e tudo mais que lhe vier na cabeça. Amando cada vez mais esse blog.

    Um beijo enorme ❤
    Quase Aurora

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  5. quando era novinha, lá pelos 15, achava a vogue assim tu-do. lembro quando fiz assinatura, nooooossa! o tempo foi passando e, socorro. ficou diferente, matérias como disse a própria falcão: para um público A. não me identificava com mais nada, de verdade. nem o nome "vogue" causava uma coisinha assim de curiosidade. parei de comprar acho que lá por 2012. cansei!

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  6. QUE ARTIGO SENSACIONAL!
    Seu senso crítico é maravilhoso, Mari! Sério! Sempre quando você publica posts assim me ensina a admirar um pouco mais você, pois não é só de looks, rostinho bonito e vida glamorosa de blogueira que este espaço é feito. Você tem meu total respeito por tudo que é e o que está se tornando. Tenho certeza que (se você quiser) um dia será uma editora chefe excelente!
    Orgulhosa de você.

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  7. Claramente Daniela não sabe o que é empatia!

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  8. Eu não entendo nada desse mundo da moda, mas seu texto foi muito instigante. Parabéns pela crítica, eu vi a campanha das paralimpiadas e achei bem sem noção. Realmente há coisas a se pensar.

    Beijus Mari ♡

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Oi Mari!

    Primeiro quero lhe dar os parabéns por essa crítica! Excelente! Consegui sentir sua perplexidade e raiva com as coisas faladas pela Daniela Falcão. Nossa... fiquei do mesmo jeito, sem acreditar no que estava lendo. Juro!

    Outra coisa que gostaria de deixar registrado aqui: ser destinada a um certo tipo de público classe A não é um problema só da Vogue. Boa parte das revistas brasileiras são assim. Pegue qualquer revista e olhe as partes onde se encontra preços de peças de roupa, decoração... enfim, qualquer coisa que possa ser comprada. Tudo é um absurdo de caro! Acho que essa prática só desestimula as pessoas comprarem tais revistas, que só mostram o quanto estamos longe dessa realidade. Claro que não posso esquecer de mencionar também a qualidade das matérias que está ficando cada vez mais fútil.

    Beijos!

    Taí... gostei!

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  11. É por esses artigos como o seu que a Vogue odeia os blogueiros. Porque podemos falar a verdade, abrir os olhos de todos porque temos espaço pra isso. Eles precisam escrever o que as MARCAS querem ler, uma viagem mágica pra terra do nunca. Estão perdendo espaço, estão ficando alucinados e desesperados. Se vê pelo editorial simplesmente ridículo sobre as paraolimpíadas. E que ela não quis falar sobre o assunto apenas porque "foi um sucesso". Patética.

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