24/08/2016

Vogue Brasil: um close errado e as Paralimpíadas

Primeiramente: Fora Temer. BRINKS.

Primeiramente, “mimimi" não é argumento e usar “o mundo está chato demais” não é um escudo bom o suficiente quando existem argumentações mais afiadas do que flechas prontas para desmoronar preconceitos. “mimimi" é uma resposta aparentemente simples, mas que tem a intenção de silenciar aqueles que se sentem incomodados (oprimidos) com uma situação e querem apontar o quê e como aquilo os afeta, ou que mesmo afete terceiros, não os oprimindo diretamente, pois o nome disso é empatia.

Isto posto, vamos ao “mimimi” do dia, também conhecido como: close erradíssimo da Vogue Brasil. Por alguma razão ausente de coerência, os atores Cleo Pires e Paulo Vilhena foram convidados a serem os embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro e, consequentemente, estrelar a campanha pela visibilidade da Paralimpíada, "Somos Todos Paralímpicos”. Na foto principal da campanha (pois não sabemos se as demais serão divulgadas depois da repercussão abaixo das expectativas), os atores aparecem photoshapados para representar dois atletas paralímpicos, Bruna Alexandre e Renato Leite, praticantes de tênis de mesa e vôlei sentado, respectivamente.

Foto: Vogue

A intenção da campanha é estimular a venda de ingressos para as partidas, pois a maior parte destes ainda esta parada nas bilheterias. O que é realmente muito triste e bizarro ao mesmo tempo, pois tem ingressos para assistir diversas modalidades entre R$30 e R$150, em contrapartida aos ingressos da Olimpíada que beiravam os R$2.000 para uma final de vôlei, por exemplo.

Vamos a alguns questionamentos antes de, aparentemente, simplesmente atacar a campanha, a começar pela intenção da Vogue nessa divulgação.

É tarefa da Vogue vender ingressos?
A revista tem histórico de envolvimento em causas sociais?
A revista sequer já demonstrou empatia por minorias da sociedade ou mesmo por esportes?

Todas as respostas para essas perguntas são negativas, o que implica na obrigação de uma abordagem muito mais empática na decisão de divulgar a campanha, afinal, inclusão social não é exatamente um assunto que faz parte dos editoriais de uma revista de moda como a Vogue Brasil.

O problema começa a se desdobrar quando questionamos o propósito de colocar atores globais para representar atletas deficientes físicos. O que isso significa? O que atores globais agregam à uma campanha sobre deficiência física? Visibilidade? Como você quer dar visibilidade à pessoas com deficiências físicas se você já começa o boicote na foto principal da campanha?

Paulo Vilhena e Cleo Pires estão para representatividade da Paralimpíada como Gisele Bündchen está para uma campanha de alerta sobre a obesidade infantil. Não faz sentido, não dá liga, não tem conexão entre os assuntos. Os publicitários criativões precisam entender que o consumidor já se ligou que Xuxa não usa Monange, bem como as revistas de moda precisam entender que representatividade não é usar um vestido feito por um "artesão” chinês que mora num porão. 

Com essa campanha os atletas paralímpicos e deficientes físicos continuam sem visibilidade, os ingressos para os jogos se tornaram um assunto secundário, a Vogue Brasil se provou mais uma vez superficial e a agência África (responsável pela criação da campanha) reforçou o estereótipo de publicitário vazio que só se importa com o buzz.

Sobre campanhas que não escondem, mas exaltam a força desses atletas:


Problematizar sempre é cansativo por que você tem que explicar por A+B pra uma pessoa que “não viu nada demais” o tamanho do problema que ela preferiu cobrir com o selo de “mimimi”. Manipular a foto de pessoas sem deficiências físicas para uma campanha sobre esse assunto reforça o preconceito de que uma deficiência faz daquele ser humano incapaz, quando na verdade eles se tornam super humanos por exigirem muito mais de seus corpos. Para alguém como os paratletas, cada conquista na mobilidade é celebrada, cada capacidade adquirida é motivo de surpresa com o corpo humano, e muito do que é banal na vida ganha um olhar muito mais carinhoso.

Eles deveriam ser colocados no pódio com premiação de amor à vida, não escondidos por rostos que, comercialmente, vendem mais.
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comentários pelo facebook:

4 comentários:

  1. Estou sem palavras para expressar o quão rico foi esse artigo!
    A imagem de cara já é chocante, as criticas - todas as que eu li até agora - foram muito bem fundadas e é muito significativo ver que o brasileiro tá acordando e não tá aceitando isso não, mesmo vindo de uma plataforma de renome como a Vogue Brasil.
    Eu amei demais esse texto.

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    1. Obrigada pelo comentário, Nayandra! ♡
      Acho que quando nos deparamos com uma situação de opressão em que nós não somos os oprimidos em questão, é muito importante situar todas as visões daquilo pra explicar tin-tin por tin-tin porque aquela atitude é silenciadora. acaba virando textão, mas pelo menos não nos diminuem com um calaboquitos de "mimimi" rs

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  2. Maria Luiza Dornelles25 de agosto de 2016 20:02

    Fico feliz mesmo de ler esse tipo de postagem em um blog de moda. Muitas vezes esquecemos (ou ignoramos) o fato de que moda não é apenas vestuário e que não é futilidade.
    Ótimo texto, ótimo ponto de vista. Adorei a ideia dos questionamentos, quando me vi respondendo não para as três perguntas, foi quando me senti mais irritada com toda essa situação. Me faz até desistir de comprar Vogue todo mês :[

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  3. Rios de palmas pra esse post. Melhor artigo sobre essa campanha de revista que não tem nada a ver com a história e só quis causar, como sempre.

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